




















A reforma do apartamento AG, garden localizado em Pinheiros, parte da compreensão do cotidiano dos moradores como matéria de projeto. O projeto procura acomodar a maneira particular como o casal ocupa a casa, transformando hábitos, objetos e interesses em decisões arquitetônicas. A intervenção constrói uma nova relação entre interior, jardim e vida cotidiana, redefine percursos e reorganiza a materialidade do apartamento como parte de uma mesma estratégia espacial.
Logo na chegada, a reorganização dos acessos sintetiza essa estratégia. A entrada social, antes bloqueada por um móvel, é repensada em conjunto com a entrada de serviço a partir de um único volume em marcenaria. Em vez de compartimentar os espaços, a marcenaria articula diferentes situações: voltada para a sala, funciona como aparador e abriga discretamente um sistema de projeção, permitindo que a parede permaneça livre da presença permanente de uma televisão; no lado oposto, incorpora um bicicletário – resposta direta à rotina dos moradores.
A mesma lógica orienta o restante da intervenção. Em lugar de soluções genéricas, os ambientes são desenhados a partir das atividades que efetivamente acontecem na casa. O solário passa a funcionar como oficina para manutenção das bicicletas; um dos dormitórios é convertido em ateliê de pintura; o escritório incorpora um painel para ferramentas de uso frequente; e uma estante contínua percorre a biblioteca para acomodar a coleção de livros da moradora, integrando naturalmente peças de mobiliário de família já existentes. Em todos os casos, o projeto procura absorver necessidades muito específicas sem fragmentar a unidade do apartamento.
A relação da moradora com o jardim também orienta decisões importantes do projeto. A renovação dos revestimentos do terraço foi acompanhada pela recuperação da infraestrutura de toda a área externa e pela ampliação das floreiras, fortalecendo a presença da vegetação. Na conexão entre jardim e solário, os limites entre interno e externo são diluídos pelo pergolado. A entrada de luz zenital acompanha toda a extensão da biblioteca e do escritório, reforçando a continuidade espacial entre esses ambientes e a área verde.
A transformação da materialidade acompanha toda a nova organização dos espaços. Em substituição à antiga predominância de tons escuros, o projeto adota uma paleta de cores intensas e complementares, cuidadosamente articuladas entre si. Em vez de destacar ambientes isoladamente, as diferentes tonalidades estabelecem relações entre os espaços e constroem uma leitura contínua da casa, enquanto a presença da madeira contribui para aquecer os interiores e equilibrar a composição.
Mais do que uma renovação estética, o projeto procura construir uma arquitetura que nasce das práticas de seus moradores. Ao transformar hábitos cotidianos em decisões de projeto, a reforma propõe uma casa em que espaço, mobiliário, materialidade e uso deixam de atuar separadamente e passam a constituir uma mesma forma de habitar.


