













Localizado na entrada de um edifício residencial construído no final da década de 1960, o projeto para o Hall Flor de Liz parte da construção de uma nova ordem espacial. Mais do que substituir acabamentos ou atualizar a linguagem do ambiente, a intervenção procura reorganizar a percepção de um espaço originalmente amplo e indiferenciado por meio de um número reduzido de operações arquitetônicas. A proposta estrutura-se pela introdução de novos planos, pela relação entre luz e matéria e pela definição precisa das proporções do conjunto.
As principais alterações concentram-se na redefinição da espacialidade do hall. O avanço de algumas paredes formam volumes que passam a estruturar o ambiente. Esses elementos organizam diferentes escalas de aproximação, definindo, de um lado, uma área destinada à permanência e, de outro, um espaço de transição para o elevador social. A amplitude original é preservada, mas o vazio deixa de ser um espaço residual para adquirir uma estrutura capaz de orientar percursos e qualificar a sequência entre chegada, espera e circulação.
Revestidos em folha natural de madeira escura, esses volumes não se apresentam como revestimentos aplicados, mas como elementos arquitetônicos que introduzem espessura à construção existente. Sua presença organiza a composição a partir da relação entre superfícies contínuas de madeira, paredes texturizadas e o novo piso cimentício. A redução da paleta de materiais reforça a leitura dos planos e faz com que a percepção do ambiente seja construída sobretudo pela proporção, luz e materialidade.
A própria condição pré-existente da estrutura do edifício passa a integrar essa lógica. O desnível existente entre as lajes, anteriormente percebido como uma irregularidade do teto, torna-se parte da estratégia projetual: o alinhamento entre o topo dos novos painéis e a laje mais baixa cria um plano contínuo para a iluminação indireta, cuja luz é refletida sobre o teto e evidencia a profundidade dos volumes, ampliando a percepção espacial sem recorrer a elementos aparentes.
Outras decisões procuram fortalecer a relação entre a intervenção e a arquitetura original do edifício. A substituição do antigo piso escuro por placas cimentícias claras amplia a reflexão da luz natural, enquanto o vidro aramado — já presente na fachada — substitui um fechamento introduzido em reformas posteriores. A nova porta de acesso à academia, integrada às paredes texturizadas, reduz sua presença no conjunto e contribui para uma leitura mais contínua dos planos.
A composição do mobiliário aproxima peças de diferentes momentos do design brasileiro, estabelecendo um diálogo entre permanência e contemporaneidade. As poltronas de Percival Lafer convivem com o banco de Jacqueline Terpins, a mesa de centro e a prateleira metálica desenvolvida para o projeto. A iluminação acompanha esse mesmo princípio. Peças discretas, luz quente e iluminação indireta nas áreas de permanência contribuem para uma atmosfera mais acolhedora e reforçam a unidade entre arquitetura, mobiliário e matéria.


